domingo, 17 de setembro de 2017

Sitiado



SITIADO será lançado no Rio, dia 23, no próximo sábado.
Local: Livraria Folha Seca  
Rua do Ouvidor, 37 - Beco do Samba.
Cerveja gelada e tira-gosto na Toca do Baiacu
Sitiados no Samba: Chico Sales, Chabocão e convidados.
Venha passar uma tarde agradável


Na sequência, o Piauinauta apresenta fragmentos dos três primeiros capítulos do romance em que são apresentados os personagens principais e o clima em que acontece a história aqui narrada. Porque "a história é uma coisa que nunca aconteceu, contada por quem não estava lá". 

No site da editora: CHIADO EDITORA










Cap I


Cap I tx

O calor do meio dia naquela trincheira era insuportável.
A farda ficava molhada de suor que lhe tirava o
claro cáqui para justo parecer a cor escura do inimigo. As
gotas de suor da testa escorriam para os olhos lacrimejarem
uma visão borrada do horizonte. Horizonte já distorcido
pelo calor, que evaporava um resto de umidade da terra
ressecada da caatinga após uma chuva orvalhada. De dia
o inimigo não dava sinal de vida, o silêncio era quebrado
pelo voo da juriti ou o canto da rolinha naquela cantiga
borbulhante de um “fogo-pagô”. Os galhos da vegetação
esturricada não se mexiam por falta de um vento que
diminuísse aquele calorão. Isso todos os dias. Mas
exatamente nesse tinha chovido de manhã e o céu nublado
apresentava um mormaço que esquentava mais que o sol.

A ordem era não conversar com o colega de trincheira,
porque tinha que aumentar a voz e revelar-se ao inimigo.
Mas cadê inimigo que não via e a vontade o fazia mirar
a arma numa rolinha, com o dedo coçando para abater a
penosa, quando a barriga começava a roncar. Já era hora da
Ceiça trazer o “de comer” que a fome já esfriava o suor que
escorria na barriga. Ceiça assoviava pela retaguarda no mais
tardar onze e meia. Pelo horário da fome já marcava mais
de meio dia. Bem acabou de pensar, escutou o assobio que
sabia ser de Ceiça e começou a olhar a retaguarda sem deixar
de reparar na possibilidade de o inimigo sair da folhagem
ressecada. Ela vinha abaixada, quase engatinhando entre os
gravetos secos da vegetação rasteira. Estava grávida, mas
a barriga inda não atrapalhava os movimentos de gatinho.

Teodoro distinguiu a roupa da cor de barro, que se confundia
com a terra recém-molhada. Percebeu Ceiça misturada na
paisagem, mas já se fazendo notar. Ela chegava guiada
pelo mandacaru, quase em forma de cruz, que marcava o
lugar na trincheira onde Teodoro ficava, desde as dez horas,
esperando a boia. As rolinhas e juritis fizeram um alvoroço
na aproximação de Ceiça. Ela se aproximou rápido, beijou a
testa suada do marido e entregou o “de comer” num prato de
barro amarrado com o pano de prato. Teodoro desamarrou
o nó do pano e desvirou o prato metendo a mão e pegando
uma coxa da galinha, sem nem esperar a colher que Ceiça
procurava no embornal. Ela já sabia que tinha de falar
baixinho e quase segredou:

“Ontem o povo correu da missa do galo, quando
começou o tiroteio”.

Teodoro, só naquele momento, percebeu que estava
passando o Natal dentro daquela trincheira e jamais se
esqueceria da data que aconteceu em 1925. E como sempre
acontecia no Natal, chovia na manhã e o céu ficava encoberto.
Todo natal amanhecia assim, não sabia como não tinha
lembrado a data até a Ceiça dizer. À noite os revoltosos
atiraram muito na escuridão e ele tinha respondido umas
tantas vezes, não muito mais de dez, segundo contou pela
manhã os cartuchos gastos de sua arma. Lá pelas nove horas,
no respingo de uma chuva rala, engatinhou até onde estivera
o inimigo à noite. Sabia que eles não estavam mais ali, muito
antes da barra do dia os tiros pararam do lado dos revoltosos
e já tinha dado dois tiros sem escutar resposta. Procurou e
encontrou uma boa quantidade de cartuchos das armas dos
revoltosos. Ceiça perguntou pelos cartuchos e Teodoro fez um
movimento de lábio para indicar onde estavam os cartuchos
no fundo da trincheira. Ceiça saltou pra dentro e encontrou
uma boa quantidade de cartuchos usados que guardava,
como se tivesse encontrado um tesouro, no matulão. Dentre
eles tinha três balas intactas que Teodoro comparou com a
dele, para dizer que era do inimigo. Teodoro mastigava uma
cabeça do osso da coxa daquela saborosa galinha e já tinha
comido todo o feijão e arroz do prato fundo – quase uma
travessa – trazido por Ceiça.

“Quanto acha que o Geraldo vai dar nesses cartuchos”?
– perguntou à mulher, mas ressaltando antes de esperar a
resposta – “Tem de valorizar, são os tiros do Natal”.


Cap II


Cap II tx

Abdon estava em Carolina no dia em que a Coluna
Revolucionária Miguel Costa-Prestes chegou à cidade
vinda do Goiás. Antes, os membros do Partido Republicano
de Carolina já tinham feito contato com a Coluna e os
esperavam em festa, acompanhados por boa parte da
sociedade local. Um emissário da Coluna conseguiu
imprimir, em uma das duas gráficas de Carolina, um
número do jornal revolucionário “O Libertador”, contando
os feitos dos andarilhos revoltosos nos sertões de Goiás.
Abdon assistiu à calorosa recepção da Coluna na cidade,
tão diferente do medo que o movimento tenentista fazia
chegar na capital. Um rico membro do Partido Republicano
da cidade fez um sarau em homenagem aos colunistas e
Abdon, que também fora convidado, teve a felicidade de
assistir a números musicais e recitais de poesias – com uma
linguagem mais culta do que a dos folhetos de cordéis que
também vendia com outras bugigangas – e ficou deveras
impressionado com o desenvolvimento artístico e político
de uma cidade tão distante do litoral.

Naquela noite amena, que até reclamava um lençol
para aquecer o corpo na hospedaria de Donana, Abdon
pensava na sua vida e nos últimos acontecimentos. Uma
carga de tecido tinha se perdido numa travessia do Rio
Pindaré e o patrão tinha posto na sua conta. Já fizera mais
de quatro viagens e não conseguia quitar a dívida. O patrão
adiantava algum, para que ele pudesse sobreviver, e a dívida
aumentava. Achava que estava escravo do “carcamano”
para sempre. Precisava mudar alguma coisa.

Dos últimos acontecimentos em Carolina lembrava
o dezenove de novembro, dia da bandeira, que lhe seria
inesquecível, pela presença da Coluna dos tenentes
revoltosos do exército brasileiro. Após o hasteamento da
Bandeira Nacional, foi lido um boletim do tenente-coronel
Cordeiro de Farias, alusivo à data. Entretanto, os discursos
de Juarez Távora e Moreira Lima fizeram eco pela proposta
de um mundo melhor naquela pátria, que nem era dele, mas
sabia que a tinha adotado para sempre. Os oradores davam
sentido à marcha empreendida pela Coluna. Seus membros
precursores eram tenentes das forças armadas brasileiras,
que se revoltaram contra os desmandos da perniciosa política
do café com leite, em que o poder era repartido com o apoio
dos “coronéis” do interior deste grande país, que mantinham
seus privilégios grilando terras e explorando, quase como
escravos, os moradores locais. O sentido da marcha pelos
sertões, frisara enfática e convincentemente Juarez Távora,
era mostrar essa situação aos povos oprimidos e fazê-los
acreditar que havia esperança. O movimento revolucionário
propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração
e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei
e os cartórios para a defesa de seus interesses. Abdon tinha
pensado que bem uma revolução podia também livrá-lo de
suas dívidas.

Para libertar o povo da opressão, em ato contínuo
aos inflamados discursos, os revolucionários mandaram
queimar, em praça pública, os livros e as listas relativos à
cobrança de impostos, “verdadeiro auto de fé, praticado
como protesto às extorsões que o fisco oligárquico exerce
sobre o povo escravizado”, nas palavras de Moreira Lima
que ficaram impressas no cérebro de Abdon. A população
assistia a esta queima na maior alegria. Abdon lembrava
que os habitantes fiscalizavam a fogueira e teve um que
reclamou que o seu recibo não tinha sido ainda queimado.

Távora sorriu e o incentivou a atiçar a fogueira para que as
labaredas destruíssem as dívidas do reclamante. Um velho
vaqueiro do sertão, dirigindo-se a Moreira Lima exclamou:
“Seu capitão, eu já tenho setenta e oito anos e até hoje
foi a coisa mió que vi fazê na Carolina, pruquê os dêrêito são
um despotismo”. E, enquanto a fogueira queimava as dívidas
dos carolinenses com a Coletoria Federal, a Filarmônica
local executava a música “Ai, seu mé”, provocando uma
verdadeira euforia no povo mais humilde da cidade.

As lembranças de Abdon cavalgavam que nem as
mulas de suas viagens por essas terras férteis e prenhes de
babaçuais. À tarde os revolucionários começaram uma ação
que eles chamavam de “requisição de mercadorias”, para
uso dos colunistas e para distribuição para os moradores
mais humildes da comunidade. Tudo era pago com notas
promissórias que seriam resgatadas quando a revolução
fosse vitoriosa. Os comerciantes fechavam suas casas para
tentar evitar o que chamavam de “saque”, mas Abdon
achou justa a história das promissórias. Tão justo que ele
mesmo ofertou a sua valiosa carga – as peças de mesclas,
que serviam para a confecção de uniformes militares –, os
animais que seriam valiosos para a marcha dos tenentes,
negociando para ficar com a seda e o linho, que, entretanto,
também foram requisitados pelos revoltosos para presentear
o povo pobre. Abdon só pediu que fossem acrescidos na sua
nota promissória, o que foi feito de pronto, e decidiu entrar
para a Coluna tenentista. Faria uma mudança de vez na sua
vida, pensou naquele momento, e guardou as promissórias
que era a garantia que estava passando de devedor a credor.

A mudança de sua vida estava ligada à mudança de governo.
Aquela era a sua causa.

Cap III


Cap III tx

Quando a barra do dia foi colorida pelo sol que ainda
ia sair, Teodoro cochilou um pouco.

E sonhou que sua trincheira era o Rio Parnaíba e que,
do outro lado, os inimigos eram os mouros que atacavam
os cristãos. Ele era um dos cruzados, que defendiam a terra
santa e esperavam pelo rei Dom Sebastião, que deveria
voltar num corcel pisando os infiéis para instaurar o reino
dos céus nas terras do Piauí. Os mouros eram assassinos,
que vinham, do outro lado do rio, roubar as princesas da
nossa terra. E sonhou com os colunistas vestidos de mouros,
montados em imponentes corcéis, portando uma lança com
que transpassariam seu coração.


***

Os heróis atravessaram o rio que separava as
terras já conquistadas pelos cristãos e as terras dos infiéis
do Maranhão. Nas terras de Mormionda a muralha dos
castelos dos infiéis tremia sob os cascos dos cavalos do
exército de Carlo Magno e seus Doze Pares de França.
A batalha derradeira aconteceria na tomada do castelo
defendido por Ferrabrás. Catapultas do exército de Carlo
Magno ativavam bolas de fogos sobre as muralhas do
castelo. Gigantes aríetes eras arrastados por fortes homens
e a cabeça do carneiro, desenhada na ponta da gigantesca
árvore, facilmente colocava abaixo a porta do castelo.
Homens armados de elmos e espadas invadiram o castelo
e travavam sangrentas batalhas de corpo a corpo contra
os infiéis. Roldão se encarregou de travar combate com
o temível Ferrabás, o filho do almirante Balão. Oliveiros
combatia bravamente, ao mesmo tempo, contra todo um
pelotão do exército dos infiéis. Teodoro se esgueirava entre
as ruelas do interior do castelo e via homens de turbantes
tomados de bexigas da varíola, perdendo membros
destroçados pela peste. Um pestilento tombou por cima de
Teodoro e sussurrou que ele estava na trincheira errada.
Enquanto tinha medo de contrair a varíola do pestilento que
estava por cima do seu corpo e já sem vida, Teodoro assistia
a luta heroica de Roldão e sua espada Durindanda contra
Ferrabrás nos seus trajes sarracenos. Ao mesmo tempo que
Oliveiros brandia sua espada Alta Clara contra o pelotão
de infiéis que morriam atravessados pela lança do bravo
cavaleiro. Enquanto o pelotão mouro sucumbia aos golpes
de Oliveiros, Roldão obrigava Ferrabrás a converter-se à
fé cristã. Os gritos dos mouros que habitavam o Maranhão
eram ensurdecedores. Os infiéis zombavam dos cristãos.
Um maranhense com sotaque de carcamano gritava: “seus
ceroulas, a batalha está perdida”. Não sabia quem ia
ganhar aquela guerra.


***

Cartaz








domingo, 3 de setembro de 2017

RECORDAÇÕES DA CASA PATERNA

(Edmar Oliveira)

Recebi o novo livro de Geraldo Borges (Recordações da casa paterna, 2017, Pi, edição do autor e Manoel Ciríaco) pelo correio e só tive tempo de abrir o envelope no dia seguinte. Ainda bem que não abri o envelope no dia que recebi, senão meus afazeres seriam seriamente prejudicados. Quando dei de cara nas primeiras letras, não consegui parar de ler. Fiz apenas uma ligeira pausa para o almoço e voltei ao livro.

Não é um livro de crônicas, como os dois anteriores (Cidade Submersa, 2011 e Estação Teresina, 2014). Se as crônicas anteriores já traziam o memorialista de forma esparsa, as Recordações são uma autobiografia sequencial deliciosa. Que se inicia antes do nascimento do autor, enredado em destrinchar a genealogia que o trouxe ao mundo, das lembranças do engatinhar nos ladrilhos da casa paterna, das descobertas do mundo nos pequenos detalhes e personagens de sua aldeia, da viagem na balsa que levou a maioria de nós interioranos para a capital, da entrada em Teresina pelo cais – quando a estrada para o sertão ou para o litoral era o rio. 

Nessas primeiras impressões, Geraldo tem o dom de revelar ao leitor piauiense as suas memórias esquecidas, pois são verdadeiras lembranças de arquétipos grudadas no nosso DNA afetivo. Do cuspe ao pé do balcão da venda; do depósito de couro de boi e de bode; do sal vendido a litro de madeira, que retira a umidade e o cheiro de maresia de um mar que nunca tínhamos visto; do vapor-gaiola, que carregava um trem de barcaças com mercadorias desejantes para serem trocadas por gêneros extrativistas, num escambo primitivo sem papel-moeda. Assim ele faz a revelação de nossas próprias memórias escondidas.

Temos uma diferença de idade que se agora não é notada, fazia-nos em gerações diferentes na meninice. Mas eu estava no vapor que aportou na Bacaba do Geraldo para o troca-troca de mercadorias e vi também o seu amigo que fazia verdadeiras maravilhas esculpidas em buriti. Descubro que aprendi a cortar a laranja com o pai do Geraldo  Era como se ele tivesse me roubado a memória para me fazer lembrar. Esses encantamentos, certamente, vários leitores terão. É o autor revelando no leitor – de forma quase mágica – suas próprias recordações esquecidas. Também cheguei pelo cais do Parnaíba, quase que na mesma balsa, e joguei bola na rua de terra batida, que depois foi empredada – como se dizia na época – e muito depois asfaltada.

Quando as recordações de Geraldo vão tecer a sua história pessoal, deixando de lado o genérico, descobrimos que não conhecemos o amigo por mais que tenhamos convivido. A pessoa que vai sendo autobiografada é um desconhecido, acho que também para o próprio autor, pois é ele quem afirma que “quem recorda já não é a mesma pessoa que viveu aquele outro tempo”. 

Mais não digo, para não privar o leitor das descobertas que me encantaram. E ainda reclamo que suas recordações terminam exatamente na época em que nos conhecemos. E de lá pra cá são quase quarenta e cinco anos que ele fica me devendo. Mesmo que “os fatos vividos e lembrados nem sempre são iguais”, nós inventamos a versão do que fomos. E a invencionice é a literatura e sua magia. No que a mentira vira verdade definitiva. Uma boa leitura!



Climério

A PAISAGEM & SEU REFLEXO
Para Edmar Oliveira

Quando na água, a paisagem é trêmula
Vulnerável ao círculo que provoca qualquer mergulho
Da pedra atirada ao pouso macio da gaivota
E, assim, de ponta cabeça as coisas mudam de lado

Uma coisa é a coisa e outra coisa é seu reflexo
O modo de ver é determinado pelo ângulo
Pelo lugar nenhum de cada um ao ver
E a mesma coisa vira seu oposto, se afirma ou nega

A mirada é informada e se produz pelo conceito
Pelo preconceito, pelo preceito, pelo efeito
Pelo aceito, pelo eleito, pelo defeito, pelo afeito
Pelo trejeito, pelo pleito, pelo direito, pelo suspeito

É que a paisagem nunca se impõe por si
É tida porque lida e declarada ao ser descrita
E passa a ser a descrição de si mesma
Mais do que o fato de ser o que de fato é

A paisagem, não se engane quem a olha:
É o cenário que a cultura crê
Que a história retém em seus períodos
E que a gente julga enxergar ao vê-la

(Climério Ferreira)